quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Taipas fazem parte da história da Serra

Os serranos se orgulham de uma imponente obra deixada pelo homem no Sul do Brasil no Século XVIII. Trata-se do conjunto de muros de pedra – as taipas.

As muradas começaram a ser construídas tão logo a Coroa decidiu fundar Lages, a então Nossa Senhora das Lagens, para frear a cobiça espanhola sobre os domínios portugueses. As taipas eram feitas por escravos.

Destaques relevantes merecem o próprio Corredor das Tropas (60 km), feito de taipas que bem materializam a história do tropeirismo do Sul e Sudeste do Brasil, as ruínas da primeira tentativa de fundação da Vila de Lages, a sede da Fazenda Cajuru, construída em 1865, o Passo Santa Vitória na divisa do Rio Grande do Sul (Rio Pelotas) tombado como Patrimônio Histórico e Natural, pelo município de Lages em 1993 e pelo município de Bom Jesus (RS) em 1994.

João Padilha, 84 anos, residiu boa parte de sua vida no interior de São Joaquim, na localidade de Boava. Lembra que a profissão de taipeiro - construtor de taipas - foi comum em toda a região. Era um dos ofícios mais requisitados pelos fazendeiros na época. Não havia arames para delimitar as terras, antes divididas por demarcações visuais através de rios ou capões de araucárias.

Não existiam muitas alternativas de renda na época, sequer agricultura. O trabalho passava de pai para filho, por gerações. Como as famílias eram numerosas, todos os filhos costumavam trabalhar para o mesmo fazendeiro. As esposas e filhas tinham atividades como o cultivo das hortas para o próprio consumo e os trabalhos na casa. Habitavam pequenos ranchos no campo, próximos de riachos.

O contrato para a construção dos muros chegava a se estender por anos. Como não havia muito dinheiro em moeda na época, o pagamento era através de cabeças de gado, ovelhas e porcos. Trabalhos maiores rendiam até áreas de terras nas fazendas. Muitos acabavam trabalhando nas lidas com o gado do proprietário depois de concluir as taipas. Eram então chamados de agregados.
O trabalho era árduo e lento. A maior dificuldade deles não era a montagem no local, mas a extração e o transporte.

As pedras ideais para a construção das taipas não são as que ficavam expostas, mas sob a terra. As pedras soltas já sofreram a ação do tempo, facilmente se quebram ao cortar.

Elas eram retiradas uma a uma com pás, picaretas e alavancas. Muitas vezes o trabalho era interrompido, pois logo percebiam que o aparente pequeno pedaço, ao começar ser descoberto, devido ao tamanho, não poderia ser retirado. Muito tempo era perdido. Por vezes, maciços de pedras no campo também não podiam ser utilizados, devido à má qualidade da formação.

O transporte da pedra era outra dificuldade. Levavam horas para chegar ao local exato da construção. “Existiam grandes pastagens por onde os muros deveriam ser construídos, mas não havia pedras por perto, somente a centenas de metros dali”.

O deslocamento era lento e feito através de uma pequena carreta chamada zorra, puxada por valentes bois carreiros. Trata-se de um instrumento de madeira resistente em forma de “Y”. As pedras ficavam no meio, e as duas partes de trás, na ponta da zorra, tinham contato com o chão. Não havia rodas.

As pedras do alicerce eram as mais difíceis. Sempre maiores. No meio - pedras de tamanho médio e, na parte superior, pequenas lajes - fatias de pedras, que davam o acabamento.

Hoje encontrar taipeiros é cada vez mais difícil, a profissão é rara. Um metro de taipa de um metro de altura custa em média 40 reais. A extração e deslocamento das pedras somente com trator.

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